Aquela tarde, eu encontrei um olhar. Um olhar que me cegou. Que me carregou para dentro dele e que nele me transformou.
Essa tarde, eu encontrei duas mãos. Duas mãos que se tornaram quatro. Que se tornaram duas. Que se tornaram uma só, como se o corpo físico já não existisse.
Esta tarde eu encontrei uma boca. Que me sugou, que me lambeu, que me comeu. Fui digerida. Virei nutriente de outro de ser. Aquilo que o mantém vivo, mas que, a cada gesto, a cada gasto de energia desse meu dependente, se esgota.
Por sorte não fui digerida por completo. Meus restos, aquilo que o outro não se aproveitou, foram expelidos. A partir do meu resto pude me recompor como uma planária, melhor, uma estrela do mar que se recria a partir de suas partes e se multiplica.
Por essa razão, esta noite, eu encontrei um olhar. E encontrei outro olhar. E outro. E outro. E todos os olhares me encontraram. E a todos eu ceguei, sem mais deixar de enxergar.
Nesta noite, eu encontrei duas mãos. Duas que se tornaram quatro, que se tornaram oito, que se tornaram 16.... as quais as minhas nunca encontravam.
Aquela noite, encontrei uma boca, a minha. E várias outras também a encontraram. E lambi, e mordi, e suguei, e comi, uma a uma. Alguns viraram nutrientes, outros não, mas me deram energia e eu sobrevivi.
Para que aquela tarde eu encontrasse um olhar. Um olhar que me cegou. Que me carregou para dentro dele e que nele me transformou...
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
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