quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

६० एनोस - परते II

60 ANOS – PARTE II
Sem saber, sempre assim, fui levando minha vida. Na verdade, minha vida foi sendo levada. Como não era capaz de tomar decisões, outros as tomavam por mim. Em função dessa minha maneira contestável de ser, acabei por me tornar vazia e incapaz.
E essa era minha definição aos vinte anos. Eu era simploriamente um vazio profundo e dilacerante. Perdia-me mais a cada momento em que eu supunha me encontrar. E vivia sufocada, com uma taquicardia constante. Vivia ansiosa, mas minha ansiedade provinha de um nervosismo sem motivo aparente. Na época, eu imaginava fazer de tudo para me preencher. Estudava, namorava, fazia amigos, me entupia de tudo. Tudo mesmo. Mas tudo me enchia, tudo acabava por me incomodar. Os livros e suas informações truncadas e contraditórias; os namoros volúveis, insuficientes, bestiais e acomodados; a quantidade de amigos aumentando em progressão aritmética e sua importância e significância diminuindo em geométrica.
Meus amigos...
Meus amigos eram contados aos montes. Amigos de porre, de sacanagem, de risos sem motivo, de ressacas. Ou seja, amigos de memória coletiva. Deles, só lembro nossos momentos. Sou incapaz de falar qualquer coisa íntima a respeito de qualquer um. Incapaz já naquela época, muito mais hoje em dia. Não sei o que se deu da maioria deles nessa vida. Lembro de mim, da loirinha e do baixinho (na época, eu sabia seus nomes, juro) jogados no chão. Um em cima do outro. Parecíamos mortos empilhados pronto para receber a quantidade de cal necessária para corroer nossos corpos. Não parecíamos, nós éramos. A diferença residia no fato de que a corrosão era interna. Nossa cal era bebida, fumada, cheirada,... Mas a idéia não era me acabar de dentro pra fora, era simplesmente me encher de qualquer coisa para acabar com o vazio. Durante muito tempo achei que ele, o vazio maldito, era minha alma gêmea, mas não era.
Quero deixar claro que alguns amigos se salvaram e eu fiz por onde tê-los presentes em toda minha jornada ou, pelo menos, em sua maior parte. Mas foram poucos, muito poucos. Menos de uma mão era suficiente para contar sua quantidade. Muito mais de incontáveis mãos não bastavam para contabilizar sua importância.
Esse vazio perdurou durante bastante tempo. Até que minha vida ganhou sentido, ganhou uma razão de ser. Engravidei. E minha vida se encheu... de problemas a princípio e a posteriori, não posso mentir. Mas esses problemas encheram minha vida. A cada solução que encontrava, pelo meu próprio esforço, para cada um deles, meu orgulho de mim mesma crescia.
(continua)

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