60 ANOS – PARTE II
Sem saber, sempre assim, fui levando minha vida. Na verdade, minha vida foi sendo levada. Como não era capaz de tomar decisões, outros as tomavam por mim. Em função dessa minha maneira contestável de ser, acabei por me tornar vazia e incapaz.
E essa era minha definição aos vinte anos. Eu era simploriamente um vazio profundo e dilacerante. Perdia-me mais a cada momento em que eu supunha me encontrar. E vivia sufocada, com uma taquicardia constante. Vivia ansiosa, mas minha ansiedade provinha de um nervosismo sem motivo aparente. Na época, eu imaginava fazer de tudo para me preencher. Estudava, namorava, fazia amigos, me entupia de tudo. Tudo mesmo. Mas tudo me enchia, tudo acabava por me incomodar. Os livros e suas informações truncadas e contraditórias; os namoros volúveis, insuficientes, bestiais e acomodados; a quantidade de amigos aumentando em progressão aritmética e sua importância e significância diminuindo em geométrica.
Meus amigos...
Meus amigos eram contados aos montes. Amigos de porre, de sacanagem, de risos sem motivo, de ressacas. Ou seja, amigos de memória coletiva. Deles, só lembro nossos momentos. Sou incapaz de falar qualquer coisa íntima a respeito de qualquer um. Incapaz já naquela época, muito mais hoje em dia. Não sei o que se deu da maioria deles nessa vida. Lembro de mim, da loirinha e do baixinho (na época, eu sabia seus nomes, juro) jogados no chão. Um em cima do outro. Parecíamos mortos empilhados pronto para receber a quantidade de cal necessária para corroer nossos corpos. Não parecíamos, nós éramos. A diferença residia no fato de que a corrosão era interna. Nossa cal era bebida, fumada, cheirada,... Mas a idéia não era me acabar de dentro pra fora, era simplesmente me encher de qualquer coisa para acabar com o vazio. Durante muito tempo achei que ele, o vazio maldito, era minha alma gêmea, mas não era.
Quero deixar claro que alguns amigos se salvaram e eu fiz por onde tê-los presentes em toda minha jornada ou, pelo menos, em sua maior parte. Mas foram poucos, muito poucos. Menos de uma mão era suficiente para contar sua quantidade. Muito mais de incontáveis mãos não bastavam para contabilizar sua importância.
Esse vazio perdurou durante bastante tempo. Até que minha vida ganhou sentido, ganhou uma razão de ser. Engravidei. E minha vida se encheu... de problemas a princípio e a posteriori, não posso mentir. Mas esses problemas encheram minha vida. A cada solução que encontrava, pelo meu próprio esforço, para cada um deles, meu orgulho de mim mesma crescia.
(continua)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
60 anos – PARTE I
São 60 longos anos. 60 longos anos de lembranças esquecidas pela minha memória frágil. Não fora assim sempre. Antes, quando era criança, ou até quando era mocinha, ela era boa. Assim, digo, razoavelmente boa.
Minhas lembranças desta tal terna infância são claras, mas desinteressantes. São normais demais. Certa vez, ouvi que o cérebro humano costuma guardar somente as melhores lembranças, as ruins são, com o passar do tempo, descartadas ou guardadas em um arquivo morto qualquer para serem resgatadas em momentos, provavelmente, inoportunos. Acho que é verdade, sabe?! As coisas ruins são escassas nas minhas memórias mais longínquas, no entanto, eu lembro que sofria bastante naqueles tempos.
Perdi meu pai amado aos 10 anos de idade. Vê? Até esse adjetivo “amado” pode ser falso. Será que eu o amava tanto mesmo? Ou é minha memória e sua edição falha que me faz pensar dessa forma? Enfim, perdi meu pai aos 10. Até então, pelo que lembro minha vida fora bem fácil, tranqüila. Nunca me faltara nada. Tinha tudo o que queria. Depois disso, eu me lembro de choros, alguns desesperos, insegurança, solidão por mais acompanhada que estivesse. Mas acho que eram só os hormônios somados à perda do meu pai. Ou não. Veja só! Cinqüenta anos depois e continuo sem saber.
De onde começo essa história? Não sei. Não sei, vê?! Sempre nunca sei. Pronto, eis aí um traço marcante de minha personalidade que me acompanhará por toda a minha trajetória, você vai ver. Acho que devo iniciar meu conto tomando isso como ponto de partida.
Pois bem, nasci sem saber e, muito provavelmente, morrerei da mesma forma. A única coisa da qual eu tinha certeza era da minha razão de ter vindo ao mundo. Não que razão era essa, somente a certeza absoluta e irrevogável de que ela existia. Quando criança, achava que o porquê de se vir ao mundo era definido pela função que uma vida ganha em determinada sociedade. E essa função tinha sempre caráter público e coletivo. Não me servia ser “apenas” boa e algum substantivo feminino que, nessa época, condizia com um palavrão que determinava a minha pseudo-inferioridade num mundo dito machista (exemplifico: esposa, mãe, dona de casa, filha, etc.). Como alguém pode ir contra todo o esforço empregado por todas aquelas mulheres que lutaram para a libertação feminina? Foi isso que pensei, melhor, que me fizeram pensar durante um tempo. Mais tarde, notei que essas mulheres munidas de toda a boa intenção do mundo acabaram por me colocar grilhões infinitamente mais pesados que os que eu já carregava.
(continua)
São 60 longos anos. 60 longos anos de lembranças esquecidas pela minha memória frágil. Não fora assim sempre. Antes, quando era criança, ou até quando era mocinha, ela era boa. Assim, digo, razoavelmente boa.
Minhas lembranças desta tal terna infância são claras, mas desinteressantes. São normais demais. Certa vez, ouvi que o cérebro humano costuma guardar somente as melhores lembranças, as ruins são, com o passar do tempo, descartadas ou guardadas em um arquivo morto qualquer para serem resgatadas em momentos, provavelmente, inoportunos. Acho que é verdade, sabe?! As coisas ruins são escassas nas minhas memórias mais longínquas, no entanto, eu lembro que sofria bastante naqueles tempos.
Perdi meu pai amado aos 10 anos de idade. Vê? Até esse adjetivo “amado” pode ser falso. Será que eu o amava tanto mesmo? Ou é minha memória e sua edição falha que me faz pensar dessa forma? Enfim, perdi meu pai aos 10. Até então, pelo que lembro minha vida fora bem fácil, tranqüila. Nunca me faltara nada. Tinha tudo o que queria. Depois disso, eu me lembro de choros, alguns desesperos, insegurança, solidão por mais acompanhada que estivesse. Mas acho que eram só os hormônios somados à perda do meu pai. Ou não. Veja só! Cinqüenta anos depois e continuo sem saber.
De onde começo essa história? Não sei. Não sei, vê?! Sempre nunca sei. Pronto, eis aí um traço marcante de minha personalidade que me acompanhará por toda a minha trajetória, você vai ver. Acho que devo iniciar meu conto tomando isso como ponto de partida.
Pois bem, nasci sem saber e, muito provavelmente, morrerei da mesma forma. A única coisa da qual eu tinha certeza era da minha razão de ter vindo ao mundo. Não que razão era essa, somente a certeza absoluta e irrevogável de que ela existia. Quando criança, achava que o porquê de se vir ao mundo era definido pela função que uma vida ganha em determinada sociedade. E essa função tinha sempre caráter público e coletivo. Não me servia ser “apenas” boa e algum substantivo feminino que, nessa época, condizia com um palavrão que determinava a minha pseudo-inferioridade num mundo dito machista (exemplifico: esposa, mãe, dona de casa, filha, etc.). Como alguém pode ir contra todo o esforço empregado por todas aquelas mulheres que lutaram para a libertação feminina? Foi isso que pensei, melhor, que me fizeram pensar durante um tempo. Mais tarde, notei que essas mulheres munidas de toda a boa intenção do mundo acabaram por me colocar grilhões infinitamente mais pesados que os que eu já carregava.
(continua)
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
अस minhas tardes
Aquela tarde, eu encontrei um olhar. Um olhar que me cegou. Que me carregou para dentro dele e que nele me transformou.
Essa tarde, eu encontrei duas mãos. Duas mãos que se tornaram quatro. Que se tornaram duas. Que se tornaram uma só, como se o corpo físico já não existisse.
Esta tarde eu encontrei uma boca. Que me sugou, que me lambeu, que me comeu. Fui digerida. Virei nutriente de outro de ser. Aquilo que o mantém vivo, mas que, a cada gesto, a cada gasto de energia desse meu dependente, se esgota.
Por sorte não fui digerida por completo. Meus restos, aquilo que o outro não se aproveitou, foram expelidos. A partir do meu resto pude me recompor como uma planária, melhor, uma estrela do mar que se recria a partir de suas partes e se multiplica.
Por essa razão, esta noite, eu encontrei um olhar. E encontrei outro olhar. E outro. E outro. E todos os olhares me encontraram. E a todos eu ceguei, sem mais deixar de enxergar.
Nesta noite, eu encontrei duas mãos. Duas que se tornaram quatro, que se tornaram oito, que se tornaram 16.... as quais as minhas nunca encontravam.
Aquela noite, encontrei uma boca, a minha. E várias outras também a encontraram. E lambi, e mordi, e suguei, e comi, uma a uma. Alguns viraram nutrientes, outros não, mas me deram energia e eu sobrevivi.
Para que aquela tarde eu encontrasse um olhar. Um olhar que me cegou. Que me carregou para dentro dele e que nele me transformou...
Essa tarde, eu encontrei duas mãos. Duas mãos que se tornaram quatro. Que se tornaram duas. Que se tornaram uma só, como se o corpo físico já não existisse.
Esta tarde eu encontrei uma boca. Que me sugou, que me lambeu, que me comeu. Fui digerida. Virei nutriente de outro de ser. Aquilo que o mantém vivo, mas que, a cada gesto, a cada gasto de energia desse meu dependente, se esgota.
Por sorte não fui digerida por completo. Meus restos, aquilo que o outro não se aproveitou, foram expelidos. A partir do meu resto pude me recompor como uma planária, melhor, uma estrela do mar que se recria a partir de suas partes e se multiplica.
Por essa razão, esta noite, eu encontrei um olhar. E encontrei outro olhar. E outro. E outro. E todos os olhares me encontraram. E a todos eu ceguei, sem mais deixar de enxergar.
Nesta noite, eu encontrei duas mãos. Duas que se tornaram quatro, que se tornaram oito, que se tornaram 16.... as quais as minhas nunca encontravam.
Aquela noite, encontrei uma boca, a minha. E várias outras também a encontraram. E lambi, e mordi, e suguei, e comi, uma a uma. Alguns viraram nutrientes, outros não, mas me deram energia e eu sobrevivi.
Para que aquela tarde eu encontrasse um olhar. Um olhar que me cegou. Que me carregou para dentro dele e que nele me transformou...
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