segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

60 anos – PARTE I
São 60 longos anos. 60 longos anos de lembranças esquecidas pela minha memória frágil. Não fora assim sempre. Antes, quando era criança, ou até quando era mocinha, ela era boa. Assim, digo, razoavelmente boa.
Minhas lembranças desta tal terna infância são claras, mas desinteressantes. São normais demais. Certa vez, ouvi que o cérebro humano costuma guardar somente as melhores lembranças, as ruins são, com o passar do tempo, descartadas ou guardadas em um arquivo morto qualquer para serem resgatadas em momentos, provavelmente, inoportunos. Acho que é verdade, sabe?! As coisas ruins são escassas nas minhas memórias mais longínquas, no entanto, eu lembro que sofria bastante naqueles tempos.
Perdi meu pai amado aos 10 anos de idade. Vê? Até esse adjetivo “amado” pode ser falso. Será que eu o amava tanto mesmo? Ou é minha memória e sua edição falha que me faz pensar dessa forma? Enfim, perdi meu pai aos 10. Até então, pelo que lembro minha vida fora bem fácil, tranqüila. Nunca me faltara nada. Tinha tudo o que queria. Depois disso, eu me lembro de choros, alguns desesperos, insegurança, solidão por mais acompanhada que estivesse. Mas acho que eram só os hormônios somados à perda do meu pai. Ou não. Veja só! Cinqüenta anos depois e continuo sem saber.
De onde começo essa história? Não sei. Não sei, vê?! Sempre nunca sei. Pronto, eis aí um traço marcante de minha personalidade que me acompanhará por toda a minha trajetória, você vai ver. Acho que devo iniciar meu conto tomando isso como ponto de partida.
Pois bem, nasci sem saber e, muito provavelmente, morrerei da mesma forma. A única coisa da qual eu tinha certeza era da minha razão de ter vindo ao mundo. Não que razão era essa, somente a certeza absoluta e irrevogável de que ela existia. Quando criança, achava que o porquê de se vir ao mundo era definido pela função que uma vida ganha em determinada sociedade. E essa função tinha sempre caráter público e coletivo. Não me servia ser “apenas” boa e algum substantivo feminino que, nessa época, condizia com um palavrão que determinava a minha pseudo-inferioridade num mundo dito machista (exemplifico: esposa, mãe, dona de casa, filha, etc.). Como alguém pode ir contra todo o esforço empregado por todas aquelas mulheres que lutaram para a libertação feminina? Foi isso que pensei, melhor, que me fizeram pensar durante um tempo. Mais tarde, notei que essas mulheres munidas de toda a boa intenção do mundo acabaram por me colocar grilhões infinitamente mais pesados que os que eu já carregava.
(continua)

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