sábado, 14 de fevereiro de 2009

60 ANOS – PARTE IV
Até nascer, seu nome era Isso; até ser registrada, Filha; e depois disso, Ana.
Fui para o hospital bizarramente sozinha. Minha bolsa estourou, dando-me um aviso tenebroso, porém esperado: “Querida, agora já é tarde.”.
Quando lá cheguei, ofegante, apresentei-me no balcão, implorando por socorro. Uma mulher alta, gorda, com jeito de halterofilista viciado em estrogênio, perguntou-me sobre o meu acompanhante. Quis matá-la. Falei que este personagem não existia nessa parte da história e, em seguida, ela me presenteou com uma ficha imensa para preencher com todos aqueles milhões de números e letras e símbolos cuja função seria supostamente simplificar a minha identificação. Quis torturá-la lentamente antes de matá-la. Preenchi a bendita, deixando alguns dados incompletos ou totalmente em branco, entreguei-a e ela me perguntou se eu tinha plano de saúde. Plano de saúde!!! Quis matar, torturar, trucidar e explodir aquela mulher. Plano de saúde? E eu tinha lá dinheiro ou responsabilidade suficiente pra pagar um plano de saúde? É claro que não. Acabei ficando com o dilema: “hospital público ou dívida até a morte?”. Apesar de odiar dívidas acabei ficando com a segunda opção. A dor, que não era tão intensa, mas sim desesperadora pela responsabilidade (agora também financeira) que me trazia foi o motivo da minha decisão.
Dei meu cartão de crédito e identidade, conseguindo assim um quarto. Pensando de agora, vejo como estava sozinha, no entanto, na época, nem sequer me lembrei disso. O trabalho de parto levou algum tempo a mais que o esperado. Queria parto normal. Depois de algumas horas, o médico me aconselhou uma cesariana. Falei que topava qualquer coisa desde que ele tirasse aquilo de dentro de mim.
Minha filha nasceu. Primeiro contato: o choro. Nas mãos dos médicos, ela chorava incessantemente, até que ele veio colocá-la nos meus braços e ela calou. Como em um passe de mágica, ficou quieta. Atrevo-me até a dizer que, nesse momento, ela deu seu primeiro sorriso. Segurei sua mão com um só dedo e ela o apertou com tanta força e vontade que me fez chorar. Era como se dissesse “Não me deixa.”. E eu me apaixonei por ela.
Tiraram-na de mim e eu dormi algumas horas. Acordei com tanta dor que era incapaz de me mexer ou encontrar um posição na medida do possível confortável para ficar parada. A anestesia estava passando. Chegaram as enfermeiras para me ajudar a tomar banho. Como foram brutas!! Não se compadeceram da minha dor em momento algum. Puxavam-me pra lá e pra cá. A única coisa que me confortava era que eu estava prestes a ver minha filha de novo.
Ela chegou. E o momento lindo da amamentação que eu tinha imaginado, não foi em nada como eu queria. Meu corpo inteiro doía. Ela mordia meu peito. Fiquei meio grogue de tanta dor. Mas tudo bem. Depois descobri que ser mãe é isso.
Fiz algumas ligações, avisei a algumas pessoas do trabalho que estava no hospital e, de repente, minha mãe aparece nele toda esbaforida. Chamando-me desnaturada. Fazendo mil perguntas com mil porquês cada. Perguntou do parto, do bebê, do pai, etc. Não respondia nada. Ela não deixava. Ela já tinha inventado as respostas das próprias perguntas, como toda mãe faz, agora eu sei.
No dia em que saí do hospital com minha filha nos braços, fui registrá-la, mas ainda não tinha definido um nome. Achava que tinha que ter um significado, que tinha que ser simples e pequeno. O maior problema era o significado. Queria que fosse algo que mostrasse o que ela tinha representado na minha vida até então. Já tinha a consciência que ela tinha sido fruto da minha falta de ação, da minha negação a. Eis que passo diante de uma Igreja Anabatista e penso: “Anabatista. Aqueles que não se batizam. Aqueles que negam o batismo. Assim como os anaeróbios. Aqueles que não precisam de ar pra sobreviver”. Pronto! O nome da minha filha era Ana, prefixo que designava exatamente o motivo da sua existência, além de ser simples e bem pequeno. Com o passar dos anos, fiquei mais e mais certa de que Ana era destinada a esse nome. Quanto maior ela ficava, melhor o representava.
(continua)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

60 ANOS – PARTE III
Não posso dizer que foi a gravidez, por si só, que encheu minha vida. Na verdade, ela só aconteceu como resultado da minha falta de ação, ou ações, como: Não tomar o anticoncepcional; não saber colocar uma camisinha do jeito certo; não conseguir decidir entre aceitar ou rejeitar a gravidez; e mesmo antes de tudo isso, não fechar as minhas pernas. Depois foi como eu disse, demorei tanto a decidir se queria ou não que, quando eu vi, já era mãe.
Foi difícil. Não quis contar pro pai. Nem pra ninguém. Não por medo ou qualquer coisa parecida, mas simplesmente pelo fato de eu não saber o que eu queria com relação ao assunto principal: Ana.
Quem é Ana? Ana é minha filha. Até eu ir registrá-la, seu nome era Filha.
Como eu ia dizendo, não contava pra ninguém. As pessoas ficavam sabendo pela obviedade visual da situação. Por exemplo, minha mãe ficou sabendo quando eu cheguei à casa dela para passar o feriado do natal (sempre fiz questão disso, apesar de não ser muito “família”) exibindo uma barriga de 6 meses como se não fosse nada. Mas sendo sincera, para mim não era mesmo. Mal lembrava que estava grávida. Não tinha enjôos, desejos, tonturas, o sono excessivo sempre tive. Ou seja, só lembrava da gravidez quando me olhava no espelho e como isso me angustiava, a freqüência dessa ação foi diminuindo até não mais existir. E já era Natal quando isso aconteceu.
O Diálogo:
- Mãe!!! Feliz Natal!!! Que saudade!!
Falei isso enquanto corria para abraçá-la.
- Fi...o que que é isso????????
E a indignação dela interrompeu o meu abraço.
Nesse momento eu pensei que quando eu fosse mãe eu jamais faria isso com a minha filha. “Será que não mesmo? Tá tão perto de acontecer!” E com esse pensamento eu entendi a histeria da minha mãe. E com esse entendimento, sem perceber,eu tinha deixado de ser filha.
Falei que não queria falar sobre aquilo naquele momento (até porque não sabia o que dizer) e que depois explicava. Esse depois nunca chegou.
Aquele Natal foi uma verdadeira merda. Na ocasião, Sua Excelência era o Silêncio e os olhares tortos e cruzados que falavam mais do que político em campanha eram seus súditos mais fiéis.
O feriado acabou e eu fui embora, sem dizer uma só palavra ou receber qualquer outra. Minto, lembro que em algum momento ouvi minha mãe dizer para si mesma: “Queria ver se o pai dela estivesse vivo!” Não era novidade, desde que ele morrera, ela falava isso sobre mim.
A gravidez foi saudável, sem cuidados especiais ou essenciais. Continuei minha rotina. Forçava-me a ignorar o interesse das pessoas demonstrado tanto com seus olhares ou com suas palavras que, suaves ou ásperas, tinham o mesmo efeito: lembrar-me de que eu tinha que tomar uma decisão.
Mas postergava e postergava। E numa bela tarde de quinta, nasceu minha taurina com cara de joelho: Ana.

(continua)