60 ANOS – PARTE IV
Até nascer, seu nome era Isso; até ser registrada, Filha; e depois disso, Ana.
Fui para o hospital bizarramente sozinha. Minha bolsa estourou, dando-me um aviso tenebroso, porém esperado: “Querida, agora já é tarde.”.
Quando lá cheguei, ofegante, apresentei-me no balcão, implorando por socorro. Uma mulher alta, gorda, com jeito de halterofilista viciado em estrogênio, perguntou-me sobre o meu acompanhante. Quis matá-la. Falei que este personagem não existia nessa parte da história e, em seguida, ela me presenteou com uma ficha imensa para preencher com todos aqueles milhões de números e letras e símbolos cuja função seria supostamente simplificar a minha identificação. Quis torturá-la lentamente antes de matá-la. Preenchi a bendita, deixando alguns dados incompletos ou totalmente em branco, entreguei-a e ela me perguntou se eu tinha plano de saúde. Plano de saúde!!! Quis matar, torturar, trucidar e explodir aquela mulher. Plano de saúde? E eu tinha lá dinheiro ou responsabilidade suficiente pra pagar um plano de saúde? É claro que não. Acabei ficando com o dilema: “hospital público ou dívida até a morte?”. Apesar de odiar dívidas acabei ficando com a segunda opção. A dor, que não era tão intensa, mas sim desesperadora pela responsabilidade (agora também financeira) que me trazia foi o motivo da minha decisão.
Dei meu cartão de crédito e identidade, conseguindo assim um quarto. Pensando de agora, vejo como estava sozinha, no entanto, na época, nem sequer me lembrei disso. O trabalho de parto levou algum tempo a mais que o esperado. Queria parto normal. Depois de algumas horas, o médico me aconselhou uma cesariana. Falei que topava qualquer coisa desde que ele tirasse aquilo de dentro de mim.
Minha filha nasceu. Primeiro contato: o choro. Nas mãos dos médicos, ela chorava incessantemente, até que ele veio colocá-la nos meus braços e ela calou. Como em um passe de mágica, ficou quieta. Atrevo-me até a dizer que, nesse momento, ela deu seu primeiro sorriso. Segurei sua mão com um só dedo e ela o apertou com tanta força e vontade que me fez chorar. Era como se dissesse “Não me deixa.”. E eu me apaixonei por ela.
Tiraram-na de mim e eu dormi algumas horas. Acordei com tanta dor que era incapaz de me mexer ou encontrar um posição na medida do possível confortável para ficar parada. A anestesia estava passando. Chegaram as enfermeiras para me ajudar a tomar banho. Como foram brutas!! Não se compadeceram da minha dor em momento algum. Puxavam-me pra lá e pra cá. A única coisa que me confortava era que eu estava prestes a ver minha filha de novo.
Ela chegou. E o momento lindo da amamentação que eu tinha imaginado, não foi em nada como eu queria. Meu corpo inteiro doía. Ela mordia meu peito. Fiquei meio grogue de tanta dor. Mas tudo bem. Depois descobri que ser mãe é isso.
Fiz algumas ligações, avisei a algumas pessoas do trabalho que estava no hospital e, de repente, minha mãe aparece nele toda esbaforida. Chamando-me desnaturada. Fazendo mil perguntas com mil porquês cada. Perguntou do parto, do bebê, do pai, etc. Não respondia nada. Ela não deixava. Ela já tinha inventado as respostas das próprias perguntas, como toda mãe faz, agora eu sei.
No dia em que saí do hospital com minha filha nos braços, fui registrá-la, mas ainda não tinha definido um nome. Achava que tinha que ter um significado, que tinha que ser simples e pequeno. O maior problema era o significado. Queria que fosse algo que mostrasse o que ela tinha representado na minha vida até então. Já tinha a consciência que ela tinha sido fruto da minha falta de ação, da minha negação a. Eis que passo diante de uma Igreja Anabatista e penso: “Anabatista. Aqueles que não se batizam. Aqueles que negam o batismo. Assim como os anaeróbios. Aqueles que não precisam de ar pra sobreviver”. Pronto! O nome da minha filha era Ana, prefixo que designava exatamente o motivo da sua existência, além de ser simples e bem pequeno. Com o passar dos anos, fiquei mais e mais certa de que Ana era destinada a esse nome. Quanto maior ela ficava, melhor o representava.
(continua)
sábado, 14 de fevereiro de 2009
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