domingo, 8 de fevereiro de 2009

60 ANOS – PARTE III
Não posso dizer que foi a gravidez, por si só, que encheu minha vida. Na verdade, ela só aconteceu como resultado da minha falta de ação, ou ações, como: Não tomar o anticoncepcional; não saber colocar uma camisinha do jeito certo; não conseguir decidir entre aceitar ou rejeitar a gravidez; e mesmo antes de tudo isso, não fechar as minhas pernas. Depois foi como eu disse, demorei tanto a decidir se queria ou não que, quando eu vi, já era mãe.
Foi difícil. Não quis contar pro pai. Nem pra ninguém. Não por medo ou qualquer coisa parecida, mas simplesmente pelo fato de eu não saber o que eu queria com relação ao assunto principal: Ana.
Quem é Ana? Ana é minha filha. Até eu ir registrá-la, seu nome era Filha.
Como eu ia dizendo, não contava pra ninguém. As pessoas ficavam sabendo pela obviedade visual da situação. Por exemplo, minha mãe ficou sabendo quando eu cheguei à casa dela para passar o feriado do natal (sempre fiz questão disso, apesar de não ser muito “família”) exibindo uma barriga de 6 meses como se não fosse nada. Mas sendo sincera, para mim não era mesmo. Mal lembrava que estava grávida. Não tinha enjôos, desejos, tonturas, o sono excessivo sempre tive. Ou seja, só lembrava da gravidez quando me olhava no espelho e como isso me angustiava, a freqüência dessa ação foi diminuindo até não mais existir. E já era Natal quando isso aconteceu.
O Diálogo:
- Mãe!!! Feliz Natal!!! Que saudade!!
Falei isso enquanto corria para abraçá-la.
- Fi...o que que é isso????????
E a indignação dela interrompeu o meu abraço.
Nesse momento eu pensei que quando eu fosse mãe eu jamais faria isso com a minha filha. “Será que não mesmo? Tá tão perto de acontecer!” E com esse pensamento eu entendi a histeria da minha mãe. E com esse entendimento, sem perceber,eu tinha deixado de ser filha.
Falei que não queria falar sobre aquilo naquele momento (até porque não sabia o que dizer) e que depois explicava. Esse depois nunca chegou.
Aquele Natal foi uma verdadeira merda. Na ocasião, Sua Excelência era o Silêncio e os olhares tortos e cruzados que falavam mais do que político em campanha eram seus súditos mais fiéis.
O feriado acabou e eu fui embora, sem dizer uma só palavra ou receber qualquer outra. Minto, lembro que em algum momento ouvi minha mãe dizer para si mesma: “Queria ver se o pai dela estivesse vivo!” Não era novidade, desde que ele morrera, ela falava isso sobre mim.
A gravidez foi saudável, sem cuidados especiais ou essenciais. Continuei minha rotina. Forçava-me a ignorar o interesse das pessoas demonstrado tanto com seus olhares ou com suas palavras que, suaves ou ásperas, tinham o mesmo efeito: lembrar-me de que eu tinha que tomar uma decisão.
Mas postergava e postergava। E numa bela tarde de quinta, nasceu minha taurina com cara de joelho: Ana.

(continua)

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