quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

E o copo se quebrou.
A mão escorregou, os tempos eram definitivamente diferentes. Nosso balé de movimentos harmoniosos e combinados intuitivamente já não existia.
Eu tinha acabado de chegar. Ele veio me receber com o sorriso mais simpático à minha presença e um copo d’água em mãos para matar a sede de tudo que eu sentia. Foi quando tudo ocorreu. Aquela sensação de uma eternidade presente em um segundo.
Fiquei sem saber o que aconteceu. Eu estiquei o braço demais e ele recuou? Ele esticou e eu recuei? Esticamos demais? Recuamos os dois? Até hoje não consegui ou não quis identificar o que ocorreu.
O copo caiu. De vertical, foi se inclinando. A água começou a derramar do copo. Senti-me esvaziando. O copo encostou-se ao chão molhado. Senti o impacto do vazio. Um metro acima nossas mãos continuavam descompassadas e paradas como em um quadro medieval. O movimento se limitava ao copo, que não era mais copo, senão vidro, senão cacos, senão estilhaços. De copo, objeto funcional e inteiro a estilhaços voadores e errantes, que me acertaram e dilaceraram o que eu era até a queda do copo. Na verdade, até que ele encostasse-se ao chão, ainda tinha a esperança de que ele voltasse a minha mão, mas ao ouvir o barulho do impacto, senti o mesmo em mim.
Fiquei surda. Fiquei muda. Fiquei cega. Queria desesperadamente voltar a enxergá-lo, a ouvi-lo, mas era como se ele também não conseguisse me ver. Estávamos descompassados. Gritava seu nome sem que som algum saísse da minha boca. Tentava ouvir seus passos ou qualquer barulho proveniente da sua existência, mas nada.
Eis então que, da dor, fez-se a luz.
Em sinal de desespero completo, tentei me encolher em posição fetal no chão (o mesmo chão que me dava certeza de que todo esse tormento de veras acontecia). Ao colocar as mãos para me dar apoio, um caco de vidro atravessou a mão esquerda. No momento em que eu sentia minhas veias sendo rasgadas e a perda dos movimentos, o clarão. E eu voltei a enxergá-lo. Eu chorava, mas não mais por causa da dor. Chorava de alegria de poder vê-lo de novo.
Entretanto, ele já não me via. Mexia os lábios tentando dizer meu nome e não conseguia. Ele passava pelo mesmo desespero pelo qual eu tinha acabado de passar. Não me via, não me ouvia, não me dizia, mas ainda se lembrava de que eu estava ali.
A dor me fez acordar. Aconteceria o mesmo com ele? Não sabia responder, mas meu inconsciente dizia que sim. O maior problema era que eu era incapaz de fazê-lo sentir dor. Tendo essa noção e me desesperando com seu desespero, fiz o único gesto que o meu corpo pedia. Coloquei minhas mãos no seu rosto, segurando-o, e beijei-o de uma forma tão desesperada quanto à situação em si.
Cortei seu rosto com o vidro fincado em minha mão. Nossos sangues se misturaram como em um pacto. Não sei se foi o amor ou a dor, mas ele voltou.
Ele me viu, me ouviu e me disse depois daquele cúmulo seqüencial de ações desconjuntas e descompassadas de caráter amplamente egoísta e individual. Ouvíamo-nos e nos víamos juntos, em movimento mútuo e recíproco. Após aquele show de horror passamos dos acusatórios “ele” e “ela” para, o romântico e esperançoso, “nós” de novo.
Hoje, “nós” somos a prova de que entre tempestades e calmarias, há sempre a chance de recomeçar sem a necessidade de se evaporar as águas passadas. Peguemos os estilhaços, limpemos e colemos um por um. Dificilmente ele será o mesmo copo de antes, mas ainda poderá conter aquilo que matará as nossas sedes.

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