Trancada. A chave está longe, mas será que quero a chave? A aventura maior é essa. Buscar a coragem de decidir entre ficar presa em um conforto desconcertante ou abrir a porta e me afastar, me afastar até mais nada ser. Me afastar, perdendo o contato com tudo o que era e reconstruir a partir do que já fui e que agora já não sou.
Olho as paredes. Tento me acostumar com essas tais que me comprimem, que me apertam e que me diminuem. Tento me acostumar. Na verdade, não tento me acostumar, o que tento é me desapegar. Me desapegar desta cerca que me prende e que acabo por gostar.
Gosto porque me dá a sensação de proteção. Mas proteção de quê? Se o medo ou os medos não são meus, essa proteção é de qualquer um menos minha. Pertence, sem dúvida, a quem construiu essa maldita cerca que me limita, me impede e me impele a querer sempre mais do que tenho e do que dizem que posso ter.
No entanto, ao mirar a chave ao alcance dos meus dedos, sinto o sopro do dragão queimá-los. Quanto mais perto, mais quente. Será que agüento a dor da libertação? Continuo a esticar os dedos ou os recolho e assopro?
Nesse segundo em que eu deveria tomar a decisão, lembro das grades da janela da torre alta que me impediram de cair e que também sempre me impediram de ver a lua cheia inteira e única, sem riscos e uniforme. Lembro de tudo o que eu não sei. Lembro de tudo o que eu penso saber. Tenho a consciência de que a cerca foi invalidada. Que o seu respaldo em minha proteção nunca existiu de veras e que não quero ser como os covardes que a construíram e que alimentaram o dragão que, com seu sopro, tenta me parar.
Mas dói, arde, destrói essa pele fina e delicada de quem pouco aprendeu da vida. Arrgh, como arde! Mas o ardor sempre vem acompanhado de um prazer inexplicável e indescritível. Um prazer que consome e leva o ardor a todas as partes do meu corpo que, até então, não estavam em contato com o fogo dos meus próprios medos. Me dou conta que, ao ter a chave em minhas mãos, o fogo já não pertence ao dragão, mas a mim. Faz parte de mim e, ao olhar em volta, vejo que tudo está em chamas. Fiz a minha escolha. Não sou mais Aurora adormecida, muito menos Rapunzel que, mesmo acordada, se deixava presa à espera de seu príncipe. Tudo se desfaz, eu me desfaço. Eu sou o fogo e, como fogo, ponho tudo abaixo.
Sinto o poder da liberdade de poder criar meu próprio dragão que não me queimará, como fez o dos pusilânimes construtores, mas sim me levará a voar e a ver tudo de um novo ângulo, tudo de cima. Com a superioridade que se faz necessária para se tratar os medos, ou os dragões, como os súditos cautelosos que devem nos mostrar os riscos, mas nunca impedir-nos de corrê-los.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
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